“Experiência Inusitada: Encontro em Las Vegas”
Vivenciei há pouco uma situação inusitada, que julgo interessante compartilhar com quem é amante de Literatura. Duas amigas americanas, também escritoras, convidaram-me a participar de um grupo de leitura crítica (todos editores) em Las Vegas. Em parte, porque uma delas desconfiava que o meu texto, embora escrito originalmente em português, contasse uma história de interesse para o mercado americano. Em parte também porque esse grupo nunca havia ouvido um escritor fazendo a tradução simultânea da sua própria obra para o inglês. Embora não pudessem analisar a linguagem (tal como a 'voz' individual de cada personagem), conseguiriam analisar – esmiuçando detalhadamente – a estrutura do meu romance.
Para quem nunca participou de algum desses grupos, ou viu através de filmes como funcionam, simplificarei dizendo que o autor vai lendo e, à medida que eles (a plateia) julgam que o texto ficou ‘fraco’, perdem o interesse e vão levantando a mão. Quando metade do grupo estiver com a mão levantada, se é convidado a interromper a leitura. Dependendo do tempo ou do humor da plateia, abrem o grupo para perguntas – e respostas - de ambas as partes.
Sentado – ou melhor, entrincheirado – atrás de uma mesa, preparei-me para ler/traduzir o meu livro. Como bons americanos, havia um placar abaixo do relógio na parede do fundo da sala, que ficava bem no meu campo de visão, registrando os minutos que a última “vítima” tinha resistido na frente deles, além da média do mês ou do ano. Última vítima: 45 minutos. Média: 17 minutos.
Brincando, indaguei se dezessete minutos não era pouco tempo para julgar uma obra. Um dos participantes olhou para todos na roda e limitou-se a rir. Um outro respondeu: “é tempo bastante para ler mais de uma página. Normalmente, depois de dezesseis linhas de um texto, a ‘viabilidade’ da obra já está decidida.” No meu jeito britânico de ser, aproveitei o gancho e emendei que considerava insuficiente para analisar a sua qualidade. Em meio à risada generalizada da platéia, alguém declarou: “o mercado literário não quer manuscritos de qualidade e, sim, manuscritos viáveis”.
Abri o meu manuscrito e enunciei, calando todos:
- Prólogo!
Duas horas depois, eu parava a leitura para o “break”, durante o qual todos falavam de economia, eleições – faltavam duas semanas para elegerem o Obama -, clubes de Las Vegas e comida. Do meu manuscrito, nada.
As minhas amigas, sem querer me ofender, segredavam seu espanto com o recorde de permanência de interesse pelo meu romance. Teorizavam, em notinhas que passavam de uma para a outra, que devia ser por causa do meu sotaque britânico (similar ao daqueles CDs que acompanham cursos de inglês britânico) – ; que somente o texto em si não justificaria a minha sobrevivência àquela platéia implacável por duas horas.
Como se não bastasse, após o “break”, fiz mais uma hora e quinze minutos de leitura. Interromperam-me com o convite para que eu retornasse no dia seguinte e lhes contasse o restante da trama, lendo os quatro últimos capítulos. Não resisti e quis saber por que ninguém levantara a mão. Nessa altura, as minhas amigas ja tinham a resposta nas dezenas de bilhetinhos que o público passara para elas durante a leitura.
No geral, concordavam que a trama em si poderia ter sido escrita por qualquer um - qualquer um! – e ainda por cima, atiraram na minha cara que a internet “está cheia de sítios onde se pode apoderar de uma sinopse de graça”. Mas, o que tornava o meu texto “singular” – aqui, traduzo da palavra ‘unique’ em inglês - , era a forma como eu havia estruturado a trama, a macroestrutura (cena/sequela) e a microestrutura (motivação/reação) das cenas e o cuidado técnico para, na microestrutura – entre outros pormenores –, garantir que as reações fossem todas, sempre, resultantes de ações e que nada fosse deixado ao acaso, ao deus ex machina, e cada cena foi estruturada para ‘trabalhar a mágica’ da trama (não da linguagem, repito, a qual não tinham condições de analisar), evento a evento, a partir do inicial.
Sobrevivi ao segundo dia - gostaram dos últimos capítulos (“loved the ending”) -, mas me senti triturado nas garras daqueles americanos nos derradeiros quarenta e cinco minutos, quando me sentei para ouvir críticas, conselhos e responder a perguntas sobre o meu processo de criação e personagens.
Transcorreu a semana e, para minha surpresa, recebi vários e-mails.
Deles!
Entre o “gostei”, “não gostei” etc, salientava-se uma questão em comum: queriam saber como eu estruturara as cenas daquele jeito, de onde havia saído o meu método.Claro que nao criei método algum, num clique; devo encontrar milhares de sítios que explicam a técnica que usei. O que fiz – aqui confesso a vocês – é que, sabendo que o meu talento é limitado e o poder de um editor em jogar no lixo (alguns devolvem) um texto ‘inviável’ é ilimitado, tomei o cuidado em estruturar obsessivamente o meu romance. E valeu a pena. A linguagem (e nisso os americanos têm razão) o copidesque, o parecerista ou o editor dá conta do recado. O xis da questão é se ter uma trama bem amarrada. Escritores pecam neste quesito. Ao menos, eu peco. Gosto de escrever bonitinho, mas qualquer professor de Português tem um domínio da língua muito melhor do que eu; ainda mais considerando que faz cinco anos que não vou ao Brasil e, mesmo nas minhas férias em Portugal, utilizo português dez por cento do tempo.
Voltando ao assunto: a trama bem amarrada, com cenas bem estruturadas, retém a atenção dos editores. E a linguagem? Quem souber estruturar um romance tem possibilidade de ser publicado? Tem e muita!
Poucos compram livros hoje em dia por causa da linguagem bem talhada. As pessoas escolhem livros para se entreter, como quem compra um DVD. Literatura é comércio. E os editores querem encontrar esses textos. “Textos com cara (linguagem) ou gosto (estilo) de clássicos ficam parecendo paradidáticos e conheço pouca gente que nao tenha ojeriza aos livros obrigatórios de colégio”, diz a minha amiga americana. Não conheço bem o mercado brasileiro, mas se ainda nao é assim, falta pouco.
Para terminar, duas últimas dicas: primeiro: para quem tiver dúvidas quanto à linguagem que estiver empregando, nao se acanhe em contratar um bom copidesque. Segundo: para garantir que a trama está bem amarrada, recrute um parecerista de sua confiança. E confiança, aqui, quer dizer honestidade, profissionalismo, franqueza – e não massagem em seu ego.
Você pode me indagar: e o meu romance lido em Las Vegas, passou pelo crivo de um parecerista?
Passou! E se passou! E antes da primeira cópia ser enviada para um editor passará novamente. Num mundo cada vez mais competitivo, entre um livro mal acabado (interprete como quiser), pefiro, como a maioria, comprar um DVD de um filme duvidoso. Ao menos, o filme dura só uma hora e meia.
Ah! E as técnicas que usei para estruturar o manuscrito que passou no teste de Las Vegas (e vai virar livro de verdade nos EUA, me trazendo uns dólares ao bolso)?
No próximo artigo prometo contar.
Me cobrem!
Escrever, pouco sei. O meu negócio é contar histórias...
Como desenvolver a percepção de visão crítica, em uma leitura
Ao ler um trecho de ficçao de forma critica, você usa seu bom senso para captar o que o escritor quer dizer, em contraposiçao ao que as palavras escritas simplesmente querem dizer. Vejamos, assim, o classico exemplo do Prologo de Memorias Postumas de Bras Cubas, de Machado de Assis, em que o narrador dirige-se ao leitor, introduzindo-o em sua jornada ficcional (baseado em estudos criticos de Marisa Lajolo, em Literatura Comentada, Abril Educaçao, 1980):
Que Stendhal confessasse haver escrito um de seus livros para cem leitores, cousa e que admira e consterna. O que nao admira, nem provavelmente consternara e se este outro livro não tiver os cem leitores de Stendhal, nem cinquenta, nem vinte e, quando muito, dez. Dez? Talvez cinco. Trata-se, na verdade, de uma obra difusa, na qual eu, Bras Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne, ou de um Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo. Pode ser. Obra de finado. Escrevi-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia, e não e dificil antever o que podera sair desse conubio. Acresce que a gente grave achara no livro umas aparencias de puro romance, ao passo que a gente frivola não achara nele o seu romance usual; ei-lo ai; fica privado da estima dos graves e do amor dos frivolos, que são as duas colunas maximas da opiniao.”
Sabendo-se que os escritores a quem o narrador de Memorias Postumas se compara (Stendhal, Sterne e Xavier de Maistre – todos escritores famosos, que se caracterizavam pela ironia de sua obra, entre outras coisas), constata-se, ironicamente, a falta de modestia que, geralmente, o autor procura manifestar ao falar de si mesmo.
Como apreender a mensagem implícita em uma obra
Quando você lê criticamente a passagem citada acima, na realidade você lê nas entrelinhas. Ao fazer isso, você consegue apreender a mensagem que o autor está realmente querendo transmitir. Vamos ler mais um trecho do Capítulo XVI: Uma Reflexão Imoral.
Ocorre-me uma reflexão imoral, que é ao mesmo tempo uma correção de estilo. Cuido haver dito, no capítulo XIV, que a Marcela morria de amores pelo Xavier. Não morria, vivia. Viver não é a mesma cousa que morrer; assim o afirmam todos os joalheiros desse mundo, gente muito vista na gramática. Bons joalheiros, que seria do amor se não fossem os vossos dixes e fiados? Um terço ou um quinto do universal comércio dos corações. Esta é a reflexão imoral que eu pretendia fazer, a qual é ainda mais obscura do que imoral, porque não se entende bem o quero dizer. O que eu quero dizer é que a mais bela testa do mundo não fica menos bela, se a cingir um diadema de pedras finas; nem menos amada. Marcela, por exemplo, que era bem bonita, Marcela amou-me...
Observe como o autor consegue sinalizar, com a sua ironia amarga, os critérios cronológicos e financeiros que podem estar embutidos no afeto que é endereçado ao ser amado. É uma ironia cética e desencantada, que se justifica pelo distanciamento que a morte de Brás Cubas faz mediar entre sua vida e a visão dela que o livro nos apresenta.
Como concluir com segurança qual é a Mensagem
Uma forma de ler criticamente um romance é ficar consciente das lições ou mensagens que o escritor envia de forma sutil ou indireta. Depois de ler Memórias Póstumas de Brás Cubas, um leitor crítico pode refletir sobre a validade de um finado contar a sua vida pregressa com o distanciamento que convém a quem não faz mais parte deste universo – e se ele assim o procede.
O interessante é que não há uma resposta certa ou errada. É o ato de formular uma questão e oferecer a sua própria opinião que conta.
Diferenças entre a leitura crítica de uma obra de Ficção da de Não-Ficção
Avaliar obras de Não-Ficção pode ser tão difícil quanto avaliar as de Ficção, embora haja diferenças. A escrita de Não-Ficção, normalmente, envolve uma série de afirmações apoiadas em evidência.
Como um leitor crítico, você precisa estar consciente deste processo. O objetivo do pensamento crítico é avaliar a informação de uma forma imparcial. Isto inclui manter-se aberto para mudar a sua mente sobre o assunto, caso se apresente uma boa evidência. Entretanto, você deve não tentar ser influenciado por evidências infundadas.
O segredo para a leitura crítica de Não-Ficção é saber como separar as boas evidências das más.
Há sinais para procurar, quando surgem em meio às más evidências ou enganosas.
Como lidar com as evidências ou suposições em uma obra
Observe a afirmativa de Brás Cubas na frase: “Mas ainda espero angariar as simpatias da opinião, e o primeiro remédio é fugir a um prólogo explícito e longo...” Cada vez que você ler uma afirmativa, pergunte a si mesmo se o autor dá alguma evidência para voltar a este ponto. No exemplo em questão, tratando-se do Prólogo, logo em seguida o leitor perceberá que o narrador se desmente ao dizer: “A obra em si é tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus.” Ou seja, assegura inicialmente querer obter a simpatia do leitor, para no final, quase dar de ombros.
O que acontece se eu simplesmente aceitar as implicações que o autor fornece
No Capítulo 1: Óbito do Autor, o narrador encerra o último parágrafo com uma frase intencionalmente solta : “Morri de uma pneumonia; mas se lhe disser que foi menos a pneumonia, do que uma idéia grandiosa e útil, a causa da minha morte, é possível que o leitor me não creia, e todavia é verdade. Vou expor-lhe sumariamente o caso. Julgue-o por si mesmo.”
A afirmativa pode induzir o leitor a esperar que o narrador será neutro e objetivo. Mas tratando-se do protagonista e sendo a história contada sob o seu foco narrativo, evidentemente, que tudo o que não encontraremos em seu livro será o distanciamento necessário dos fatos relatados e a isenção de julgamento. Se o leitor simplesmente aceitar a implicação primeira, acabaremos concluindo que ele foi atraído pelas más evidências.
Quem é Kyanja Lee?
Formada em Propaganda e Marketing pela ESPM e especialista em Língua e Literatura Inglesa pela UNAERP. Seu interesse pelo ser humano a fez investir também na área de Psicologia, na qual é pós-graduada em Psicologia Social e, atualmente, com uma Pós em Psicologia Transpessoal, na ALUBRAT (Campinas), em andamento.
Após um longo desvio de rota, resolveu voltar à origem de sua paixão, àquilo que Joseph Campbell chamava de "o chamado do guerreiro": a Literatura. Tem se dedicado a fazer leitura crítica de originais de novos autores, campo extremamente vasto, em que se sente desenvolvendo um trabalho útil e de base (o trabalho "invisível", mas que se percebe) e de revisão de textos (como escritora, não apenas fazendo correções ortográficas e gramaticais, mas sugerindo novos caminhos ou palavras que possam passar maior credibilidade ou leveza ao texto). Em menor intensidade, tem se dedicado aos próprios textos, que espera um dia poder publicar numa antologia juntamente com outras colegas "apaixonadas" pela arte da palavra.
Por que é que a gente é assim?
Já perdi a conta de quantas vezes ao longo dos anos tenho ouvido a frase “foi problema de comunicação”.
Essa justificativa é dada quase sempre na tentativa de colocar um “ponto final” em uma situação que gerou resultados insatisfatórios para muitas senão todas as partes envolvidas em um contexto, seja esse contexto um relacionamento pessoal ou um relacionamento intra ou inter empresas envolvendo dezenas, centenas ou até milhares de colaboradores. Isso para não falar nos relacionamentos de cunho público, entre Estado e Nação.
Afinal, o que é que acontece com a “tal da comunicação” para que ela cause tantos problemas que ninguém tenta resolver?
Tenho cá pra mim que a grande dificuldade está em conseguir que o comunicador entenda e assuma que absolutamente toda – sim toda – a responsabilidade da comunicação está em suas mãos, e a palavra mãos aqui representa apenas um agrupamento para boca, palavras, postura e todos os recursos passíveis de utilização em uma comunicação.
Assim, se eu escrevo e você não lê, o problema é meu, que não consegui atrair sua atenção.
Se você lê e não entende, o problema é meu, que me expressei mal perante sua forma de captar e absorver informações.
Se você entende e decide ignorar a mensagem ou não agir da forma sugerida, o problema é meu que não fui apta a persuadi-lo daquilo que apresento.
Essas verdades estão presentes na comunicação de uma empresa com seus clientes, do gerenciamento com os funcionários, da administração com os acionistas, dos professores com seus alunos, dos pais com os filhos e assim por diante.
Sim, eu disse isso mesmo: se um funcionário de uma empresa não compreende o que precisa fazer e por quê, o problema está com seus orientadores. Se um aluno não aprende, o problema está com seu professor. Se um filho não aceita a educação que lhe é dada, o problema está com os pais. Se um cliente não decide pela compra do que necessita com aquela empresa, o problema está com seu vendedor. Gerenciar, administrar, ensinar, educar e vender são apenas alguns dos sinônimos de comunicar.
O que todos precisamos aprender, nos mais variados papéis que assumimos, é que comunicar significa ter acesso positivo ao cerne do outro.
Para isso, precisamos estar aptos a nos despir de nossa rigidez e assumir a posição do outro no momento da comunicação. Compreendê-lo, como tentamos compreender a nós mesmos, em seus objetivos, história, sonhos, desejos, anseios, enfim, como simplificam os americanos: é preciso calçar o sapato do outro. E assim calçado, entender onde é que o sapato aperta e agir para aliviar esse aperto.
Em nossas tentativas diárias de comunicação, estamos muitas vezes apressados, atolados, sem nenhum desejo ou disposição para pensar e apreciar o ser com quem desejamos estabelecer esse contato.
E a maior parte de nós acha que sabe comunicar e que fez bem a sua parte.
Por que é que a gente é assim?
Respondendo às Dúvidas de um Escritor Iniciante
O quanto você se sente seguro de que o seu livro atende às necessidades do mercado editorial, ou seja, em que medida está pronto, atraente? Essa dúvida é muito comum, principalmente tratando-se do primeiro livro que você quer publicar. Talvez você esteja precisando da leitura crítica de um parecerista, o profissional especializado em lhe apontar como deixar seu texto ou trama mais dinâmica, verossímil, consistente, enfim, deixar brilhar todo o seu talento – tanto na forma, como no conteúdo.
Muitas vezes, um conteúdo riquíssimo e original se perde em meio a uma estrutura tosca ou estilo rebuscado. O contrário é verdadeiro: uma escrita correta, harmoniosa, mas com uma dinâmica comum, prosaica demais. Como acertar a mão ou saber que se acertou a mão? Simples: contratando os serviços de uma leitura crítica. Longe de ser um “luxo” ou estágio supérfluo, todo autor deveria incluir a leitura crítica como uma das etapas que envolvem o processo da criação até a publicação. É a garantia de que o seu livro vai receber mais cliques e atenção do editor, do outro lado, do que um outro que não tenha passado pelas etapas necessárias para o sucesso de uma publicação iminente.